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Oito filhos e um sonho: Olavo Nunes da Silva chegou a Mato Grosso em 1974 para criar a família e ajudar a construir a cidade de Colíder

O ano era 1974. Após a perda da esposa, Olavo Nunes da Silva se vê diante da difícil missão de prosseguir sozinho na criação dos oito filhos. Desgostoso com os rumos da economia cafeeira em Altônia, no Paraná, decide buscar um novo lugar. Coloca as crianças e os poucos pertences na carroceria de um caminhão boiadeiro para desbravar um mundo novo e construir uma nova história. O destino? Colíder!

Hoje, aos 82 anos, ‘seo’ Olavo lembra das dificuldades e das surpresas da viagem de quase 15 dias dividindo o pequeno espaço com carneiros e equipamentos para agricultura e mineração. Aos solavancos, o caminhão seguia cortando o poeirão das estradas de terra. Naquele tempo, o asfalto era pouco. Às vezes, chovia. Às vezes, fazia frio. E sentiram fome. “Dormíamos em redes amarradas logo acima dos animais”, relata.

O desembarque em Colíder aconteceu na MT-320, na entrada do vilarejo, no local onde funcionava um posto de combustíveis, nas imediações do primeiro trevo de acesso à cidade. “Na época, ainda era um descampado. Descarregamos nossas coisas ali”, disse ‘seo’ Olavo. Depois, caminharam até um mercadinho que ficava na atual avenida do Colonizador, próximo à região do Lago dos Pioneiros.

“Naqueles tempos, era uma beira de rio, um corguinho. Era ali que ficava a colonizadora”, lembra ele. “Chegamos ali. Cercado dos meus oito filhos, eu conversei com o ‘seo’ Raimundo [Raimundo Costa Filho, o colonizador], que vendia terras aqui. Eu disse: ‘Olha, eu estou aqui com meus oito filhos, não tenho um tostão, estamos passando fome e eu quero uma ajuda do senhor. Depois eu pago o senhor”.


Raimundo retrucou: “Mas de que jeito o senhor vai me pagar?” Foi a vez de Olavo responder: “Eu e os meus filhos vamos trabalhar. Eu quero viver a minha vida aqui”. Raimundo virou, então, para um a pessoa e pediu: “Vai lá no Cabeça Branca e compra meio saco de arroz, um fardo de jabá, meio saco de feijão e uns tijolos para ele fazer um fogãozinho lá”. “Foi assim que o seo Raimundo me ajudou. E foi assim que tudo começou”, explica Olavo.

Em 1974, Colíder ainda era uma vila muito acanhada. Tinha algumas casas ao longo da rua onde hoje é avenida do Colonizador Roque Guedes até a atual avenida Marechal Rondon. Para se sustentar, Olavo Nunes da Silva foi vender terras para o ‘seo’ Raimundo. “O terreno que eu vendesse, eu ganhava outro. Rapidinho eu estava com quatro ou cinco terremos vendidos. Deus me abençoou demais”, relembra.

Uns quatro anos depois, ‘seo’ Olavo juntou o dinheiro escondido sob o colchão da cama e comprou um hotel. “Naquele tempo, 150 mil réis era dinheiro prá besteira. Dei 50 mil de entrada para pagar o resto depois. E fui trabalhar. Fui reformando aos poucos, ampliando, trocando a madeira por tijolo e construindo mais quartos de alvenaria. E ali comecei a minha vida. E hoje tô muito feliz aqui”, afirma. Graças à dedicação ao trabalho, ‘seo’ Olavo também comprou uma pequena propriedade rural, onde investe na agropecuária.

A DEDICAÇÃO AOS FILHOS

E os filhos? Ah, os filhos ele criou todos com muito carinho e dedicação. Nunca mais sentiram a fome. Sempre dormiram sob um teto aconchegante e todos estudaram. “Hoje, estão bem encaminhados”, comemora ‘seo’ Olavo, que é avô de 25 netos e bisavô de 13 bisnetos. “Eu, por exemplo, sou formado em Administração e Ciências Contábeis”, informa o filho Cláudio da Silva, que tinha apenas quatro anos por ocasião da chegada a Colíder.

Cláudio recorda das dificuldades do começo. “Faltava tudo. Nós chegamos aqui não tínhamos nem o que comer. Ganhamos uma lona, com a qual o pai fez um barraco e fomos morar ali”, pontua. “Aí, começamos a trabalhar. Meu pai tocou um barzinho. Depois, começou a buscar gasolina em Itaúba para vender aqui. Um dia ele arrendou o Hotel Paraná, que comprou mais tarde. E assim que começou a juntar dinheirinho, que ele guardava embaixo do colchão. Depois comprou uma fazendinha. Trabalhamos com garimpagem de ouro. E foi assim que a nossa vida melhorou”, revela o filho.

Cláudio fica emocionado quando fala sobre o pai. “Eu tenho muito orgulho do meu pai. Todos nós nos sentimos honrados em sermos filhos desse pai. Na verdade, pai e mãe. Quando o pai casou de novo eu já tinha 16 anos. Ou seja, dos meus quatro até os 16 anos era apenas ele cuidando de mim e dos meus irmãos, quatro mulheres e quatro homens. Não deu nenhum vagabundo. Ele sempre pregou a honestidade e cobra de nós isso. Pede que nunca peguemos um centavo que seja de ninguém. Todos são trabalhadores. Moramos todos aqui em Colíder em função dele”.

TÍTULO DE CIDADÃO COLIDENSE

Cláudio revela que está muito feliz com o Título de Cidadão Colidense que a Câmara de Colíder, através do vereador Alencar Pereira (DEM), concedeu nesta segunda-feira (14.08) ao pai pioneiro. “Olha, a gente ficou muito feliz e emocionado. É mais do que justo. Meu pai é um dos fundadores de Colíder e trabalhou muito pelo desenvolvimento da cidade. É um homem honesto e de caráter. Sempre digo às pessoas que se Deus chegasse hoje e pedisse para escolher um pai, eu escolheria esse velhinho aqui. O que ele não tem em tamanho tem de hombridade”, garante.

Do alto de sua simplicidade, Olavo Nunes da Silva diz que está muito satisfeito com a homenagem reservada a ele por Alencar Pereira. “Uma homenagem dessa, para mim, é muito maior do que a maior riqueza do mundo, você acredita nisso?”, comenta. “Sou um cidadão realizado por morar em Colíder. Tenho meus filhos. E esse aqui [o Cláudio] vai todo dia até minha casa me olhar, bater um papo comigo. Isso não tem dinheiro que pague”, acrescenta o pioneiro, que, apesar das 15 cirurgias às quais já foi submetido, continua um homem forte e lúcido.

Olavo Nunes da Silva é aposentado e convive com Elza Maria da Silva. É pai de Edson Nunes da Silva, Cláudio da Silva, Sonia Aparecida da Silva, Marilene Aparecida da Silva, Edis Nunes da Silva, Maria Aparecida Quejado, Antônio Aparecido Quejado e João Aparecido da Silva (In memorian).

HOMENAGEM AO DESBRAVADOR

O pioneiro Olavo Nunes da Silva foi homenageado durante a sessão desta segunda-feira (14.08) com o Título de Cidadão Colidense, de autoria do vereador Alencar Pereira (DEM). “Olavo é uma das pessoas que ajudou a desbravar o nosso município e contribuiu para o desenvolvimento de Colíder. Trata-se de uma justa homenagem a um cidadão modesto e dotado de dignidade”, comenta Alencar.


Alencar Pereira justifica que é fundamental enaltecer a importância das pessoas que foram importantes para a formação econômica e social de Colíder. “E o ‘seo’ Olavo é um desses exemplos aqui. Ele realmente enfrentou a dificuldade. Hoje, é amigo de todo mundo e ainda trabalha pelo engrandecimento do nosso município. Ele merece esta singela homenagem”, acrescenta o vereador.

O presidente da Câmara, Rica Matos (PSD), afirma que está muito orgulhoso e participar desse momento em homenagem ao ‘seo’ Olavo. “Estou muito feliz. E dou os parabéns ao Alencar por essa iniciativa. ‘Seo’ Olavo contribuiu muito para o desenvolvimento de Colíder. É uma pessoa maravilhosa, um excelente pai, era meu vizinho e formávamos uma grande família na rua Xingu”, enaltece.

Pernambuco Filho (PMDB), por sua vez, pontua que Colíder é essa cidade bonita graças a desbravadores como ‘seo’ Olavo. “Foram essas pessoas que chegaram aqui num tempo em que não tinha nada e fez com que Colíder seja hoje uma cidade promissora e boa de se viver. Eles acreditaram nessa terra, de onde tiraram o sustento de suas famílias. Teve muita gente que não aguentou e foi embora, porque o sofrimento era muito”, lembra o vereador.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Os primeiros habitantes da região de Colíder foram índios kayabi. Eles ocupavam as margens do Rio Teles Pires e foram deslocados ao Parque Nacional do Xingu e à Área Indígena Kayabí, no município de Juara. Em 1955, a Fundação Nacional do Índio (Funai) impediu uma tentativa de construção de uma pista de pouso na região da Fazenda Tratex. Um dos integrantes da equipe de trabalhadores era Antônio Ricardo da Silva, que acabou retornando a Colíder e fixou residência no município em 1976.

A colonização de Colíder começou, de fato, a partir de 1970, incentivada pelos incentivos oferecidos pelo governo militar, sob o slogan “Integrar para não entregar”. A BR-163 ainda sendo construída pelos soldados do Batalhão de Engenharia de Combate (9º BEC). Ao mesmo tempo, empreendedores começam a comprar grandes áreas de terra na região para construir cidades.

Raimundo Costa Filho era um desses desbravadores. Em 1973, ele comprou a área conhecida por Gleba Cafezal, que virou patrimônio em 7 de maio daquele mesmo ano. A primeira obra de Raimundo foi a construção de um galpão, que passou abrigar armazém, dormitório, pensão e, até mesmo, enfermaria.

A partir do sucesso de venda das terras da Gleba Cafezal, Raimundo ousou sonhar mais alto e deus os primeiros e fundamentais passos para a construção de uma cidade. A junção do nome da Colonizadora Líder acabou por batizar o novo núcleo urbano de Colíder, que nasceu para se transformar na cidade-polo da região. A maioria das pioneiras veio dos estados de São Paulo e Paraná.

Colíder virou distrito em 18 de dezembro de 1976, pela lei estadual 3.746, ainda subordinado ao município de Chapada dos Guimarães. O município foi criado em 18 de dezembro de 1979, através da lei estadual 4.158. Mas a instalação aconteceu somente em 2 de julho de 1981. Até 1982, a cidade foi administrada por Antônio Agostini Barbiero, nomeado pelo governo estadual. O primeiro prefeito eleito foi João Guedes, que comandou o município de 83 a 88.

ECONOMIA

Nas décadas de 80 e 90, a produção agropecuária e o garimpo eram as principais fontes de renda dos primeiros moradores. Depois, veio a extração de madeira e a pecuária, que passaram a fomentar a economia local. Hoje, A pecuária intensiva é uma realidade, que divide espaço com culturas diversas, a agricultura vem ganhando forca, com plantio de soja, milho e feijão em algumas áreas de grande porte. O comércio tem significativa participação na arrecadação de divisas. O extrativismo mineral faz parte da economia municipal.

Os municípios de Itaúba, Guarantã do Norte, Nova Canaã do Norte e Matupá já foram distritos de Colíder – que tinha área total à época de 41.853 km² – e desmembrados a partir de 1986. Atualmente, a área territorial é 3.103,958 km². A população do município é estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 32.120 habitantes.

Fonte: Sérgio Ober, da Assessoria de Imprensa da Câmara de Colíder